“Tivemos de demitir todos os 120 funcionários e fazer financiamentos na tentativa frustrada de recuperar totalmente a lavoura. Perdi alguns imóveis e uma fazenda. Jamais vivemos algo como a vassoura-de-bruxa, foi uma coisa altamente desastrosa”.

Exatos 30 anos depois do surgimento do fungo que dizimou as plantações de cacau no Sul da Bahia, o cacauicultor Fernando Botelho, 77, celebra o crescimento da sua marca de chocolate e outros derivados do cacau orgânico, a Modaka, e se prepara para participar da 11ª edição do Chocolat Bahia Festival, que acontece em Ilhéus (BA), de 18 a 21 de julho de 2019.

O evento, hoje considerado o maior do setor no Brasil, teve um início modesto, com apenas quatro marcas nacionais. Em 2019, 70 produtores de chocolate de origem, de um total de 170 expositores, ocuparão o pavilhão de feiras do Centro de Convenções da cidade.

A crise que abateu a cacauicultura na região em 1989 levou os produtores a buscar alternativas. “Começamos a fazer polpa e geleia de cacau na cozinha da minha mãe”, conta a engenheira Patrícia Viana Lima, 50 anos, filha de Botelho e sócia da Chocolate Maker da Modaka. O nome faz referência ao doce do deus hindu Ganesha, símbolo de prosperidade e força no rompimento de obstáculos. Desde 2012, é na única fazenda que restou à família Viana Lima, no município de Barro Preto, Sul da Bahia, onde se produz o cacau 100% orgânico que dá origem aos nibs, amêndoas crocantes e chocolates certificados nacional e internacionalmente.

Região Sul da Bahia se reiventa com produção de cacau selecionado e chocolate de origem  Foto/Ana Lee

O beneficiamento da amêndoa foi a saída encontrada para a derrocada da produtividade.

“O Chocolat Festival surgiu justamente para fomentar a profissionalização desse novo mercado que, em 2008, surgia ainda timidamente na região e hoje está em plena expansão. Há 11 anos reunimos consumidores, especialistas e produtores nesse evento, uma grande oportunidade para discutir a industrialização, a verticalização da produção e, consequentemente, a melhoria da qualidade das amêndoas de cacau selecionado e produto final elaborado”, pontua o empresário Marco Lessa, idealizador do festival, eleito em 2016 e 2018 uma das 100 personalidades mais influentes do agronegócio no Brasil.

O Festival atrai turistas, consumidores em geral, fazendo o papel educativo de levar ao público a oportunidade de degustar produtos singulares de alto nível gastronômico, a ter contato com o mundo do chocolate através de palestras, cursos, e elevar o nome da Bahia a padrões internacionais como referência em chocolates de alta qualidade”, elogia Cristiano Santana, presidente da Associação Cacau Sul Bahia, que representa mais de 2.300 produtores.

Chocolat Festival reúne produtores, especialistas e consumidores de chocolate de origem   Foto/Divulgação

Com teor mínimo de 40% de cacau (contra os 25% das marcas de grandes indústrias no Brasil), o chocolate produzido a partir de amêndoas selecionadas – em um processo intitulado Bean to Bar (da amêndoa à barra) ou de Origem – tem conquistado consumidores mundo afora. “Em 2015 começamos a exportar nossos chocolates para a França. A receptividade é excelente e pretendemos avançar pela Europa”, revela Alexandre Soeiro, gerente da Mendoá Chocolates, uma das marcas em exposição no Chocolat Festival.

Indicação Geográfica

O registro de Indicação Geográfica (IG) conquistado no ano passado, garante aos produtores de cacau do Sul da Bahia o Selo de Origem. Ele é concedido a lugares que são conhecidos como tradicionais produtores de um determinado produto ou serviço ou cujas características do produto, quando originário do local, são únicas.

No caso do Sul da Bahia, conta toda a tradição e história em torno da produção de cacau, como, por exemplo, o modo de produção cabruca, que minimiza o impacto no meio ambiente, ajudando a manter parte da flora e sem eliminar a fauna local. “Sem dúvida, o Selo de Origem chega no momento certo para valorizar ainda mais o trabalho que vem sendo desenvolvido, elevando o patamar tanto da matéria-prima quanto do nosso chocolate no mercado”, comenta Lessa. Atualmente, a Bahia lidera o ranking de produção de cacau no País, com mais de 200 mil toneladas produzidas entre 2017 e 2018.

Programação

Voltado para consumidores e profissionais da área, o Chocolat Bahia Festival atrai anualmente milhares de visitantes, marcando o calendário turístico do estado e firmando o Sul da Bahia como principal região produtora de chocolate de origem do Brasil.

Durante quatro dias, além da venda de chocolates e outros derivados do cacau selecionado, o 11º Chocolat Bahia promove exposições históricas e artísticas, cursos de capacitação, workshops, debates e palestras ministradas por especialistas internacionais.

Programação do Chocolat Festival inclui oficina de confeitaria para crianças   Foto/Divulgação

Entre os destaques desta edição está a Cozinha Show, com workshops de confeitaria e gastronomia à base de chocolate ministrados por grandes chefs do Brasil. Lucas Corazza (especialista em chocolate formado na França e jurado no programa Que Seja Doce, do canal GNT), Rafael Barros (eleito pela revista Veja o melhor confeiteiro de São Paulo), Tati Benazzi (cake designer e participante da Batalha dos Confeiteiros da Record TV), Karla Leal  (jornalista e chocolatière à frente do ateliê-escola Chokolateria no Rio de Janeiro), Júnior França (consultor e coordenador de eventos gastronômicos com especialização na Espanha), Janaína Suconic (chef confeiteira com formação nacional e internacional e professora de gastronomia da Universidade Paulista), são os chefs convidados além dos chefs locais André Cabral,  Zilma Helena, Daniela Façanha e Olívia Fernandes, trazendo o melhor da região.

O Fórum do Cacau e o Chocoday trazem palestras proferidas por especialistas. Entre as apresentações mais disputadas estão as da consultora francesa Chloé Doutre-Roussel, autora do livro The Chocolate Connoisseur e conhecida em todo o mundo como Madame Chocolate. Chloé falará sobre o mercado mundial do cacau e também sobre como utilizar os sentidos para reconhecer um bom chocolate.  

Todos os resíduos recicláveis produzidos pelo evento serão destinados à reciclagem graças a parcerias com o Grupo de Amigos da Praia (GAP) e a cooperativa Coolimpa.

O Chocolat Bahia – 11º Festival Internacional do Chocolate e Cacau conta com a parceria do Governo da Bahia, através das secretarias do Turismo, do Desenvolvimento Econômico, da Agricultura, do Desenvolvimento Rural, CAR. Apoio financeiro do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura, assim como da Prefeitura Municipal de Ilhéus, Sebrae, Governo do Pará, Chocolates Harald e Sicredi. O evento também tem apoio institucional da CEPLAC, Instituto Biofábrica, UESC, GAP, entre outras instituições. O Chocolat Bahia é uma realização da MVU Eventos, detentora da marca para o Brasil e exterior.

Serviço:

Chocolat Bahia Festival – 11° Festival Internacional do Chocolate e Cacau

Data: 18 a 21 de julho de 2019

Local: Centro de Convenções de Ilhéus (BA)

Ingressos: R$ 10 (inteira) R$5 (meia-entrada) para estudantes. Crianças até 10 anos não pagam entrada.

Workshops Cozinha Show: R$25   Palestras Fórum do Cacau e Chocoday: R$50.

Mais informações: www.chocolatfestival.com