“Yves Saint Laurent”, o filme, sem data de estreia no Brasil, revela o lado sombrio e as criações geniais do estilista argelino

Beth Barra

Vivienne Westwood, a sempre musa dos pós-modernos – já na segunda geração de aficcionados – disse em junho de 2008, quando Yves Saint Laurent morreu, aos 71 anos: “foi um dos poucos a alcançar a perfeição em cada coisa que tocava”. Com um fraco por drogas (especialmente na juventude) e durante toda a vida enfrentando períodos de depressão, ele foi também genial, revolucionário, ousado, elegante e provocante – o que incluiu a campanha para Pour Homme, em 1971, quando pousou nu,clicado por Jeanloup Sief. Os cartazes tornaram-se obra cult e símbolo de um criador adorado pelas mulheres, com amigas fieis, entre elas Catherine Deneauve, uma de suas musas. O longa de Jalil Lespert é a primeira cinebiografia sobre o designer sofisticado e apaixonado pelo ofício com o aval de Pierre Bergé, companheiro de toda vida, sócio e mantenedor do acervo YSL. Sem data de estreia no Brasil, e mesmo nos Estados Unidos (a distribuição norte-americana deve ser de Harvey Weinstein), o filme foi aclamadopelos francesesdesde os primeiros dias de exibição, em janeiro deste ano. Fotos/Divulgação

SITE Movie Yves-Saint-Laurent 2SITE Movie Yves-Saint-Laurent 1Apaixonados pelo trabalho – e pela vida turbulenta de Saint Laurent – andam acessando trailer oficial e colecionando impressões sobre o filme.  A atuação de Pierre Niney como Yves já é unanimidade. O ator, com um tipo físico parecido, fez aulas para que sua voz fosse imediatamente associada ao personagem. Aos 24 anos, o jovem ator do Thêatre de la Comédie Française conseguiu transformar sua atuação no coração e mente do designer.

O apoio de Pierre Bergé, que palpitou no processo e permitiu algumas gravações na label, em Paris, se estendeu ao figurino do longa, que traz modelos originais de Yves Saint Laurent. O uso de suas criações seguiu regras e rituais, entre elas, a de que as atrizes não gravassem mais de duas horas seguidas com uma peça, sempre com lenços umedecidos à mão para evitar o suor e manchar as preciosidades.

O figurino deslumbrante, com 77 peças do acervo da fundação da marca, é o lado glamoroso do longa, que expõe a genialidade criativa de Yves Saint Laurent. Mas Jalil Lespert se preocupou também em criar um filme intimista, mostrando as dores e as sombras na vida do estilista argelino, nascido em 1936, em Orã.  Ele aborda a carreira e a trajetória, pública e privada de Yves,  entre os anos de 1956 e 1976.

“Yves Saint Laurent” retrata a intimidade, o companheirismo, as crises e a paixão entre YSL e Bergé, um relacionamento de 50 anos. O companheiro de vida é interpretado por outro destaque francês, saído dos palcos: Guillaume Gallienne.

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Pierre Niney como Yves e Guillaume Gallienne como Bergé crédito/divulgação

O diretor não fez de Saint Laurent um modelo de perfeição. Produziu cenas belíssimas de amor entre o designer e seu companheiro e reverenciou sua genialidade desde a entrada na Dior, como assistente do mestre, até o lançamento de sua grife em 61, com criações geniais e icônicas. O “le smoking” de Saint Laurent mudou a relação das mulheres com as peças masculinas, o que foi iniciado décadas antes por Chanel.  Foi uma espécie de provocação de gênero em um tempo (1966) em que mesmo as mais incendiárias personagens femininas da vida real não costumavam sair de terno e calça comprida, especialmente em festas noturnas.

Cenas impactantes, ritmo ora intenso, ora delicado, trilha, diálogos, fotografia. Tudo em “Saint Laurent” é primoroso, atraente, encantador. Um dos méritos de Jalil Lespert foi captar todos os YVS em seus diversos momentos: de celebrações, crises, tristeza, genialidade.

TRAJETÓRIA E ÍCONES DE UM MESTRE

* Yves Saint Laurent impressionou Christian Dior, outro grande mestre do estilismo e da haute couture francesa. Ele ganhou um concurso um concurso internacional ao criar um vestido coquetel e tornou-se assistente do mestre em 1956. Com a morte precoce de Dior no ano seguinte,  assumiu a direção criativa da label e lançou a primeira coleção Dior assinada por ele em 58. A série de vestidos em shape trapézio (saia evasê e ombros mais estreitos) tornou-se um sucesso e valeu o prêmio Neiman Marcus.

 

*  Na collection seguinte, Yves mostrou blusões de couro por cima de blusas de gola rolê, o que causou certa rejeição – embora em pouco tempo sua criação servisse de fonte de inspiração para outro estilista, com sucesso. Corria o ano de 1960 e o designer foi servir na guerra da Argélia. Marc Bohan ocupou seu lugar na maison Dior.

 

* A guerra e a saída da Dior deram a YSL a oportunidade de lançar sua própria marca em 1961, sempre com o apoio de Bergé. O criador genial e o empresário visionário transformaram a grife em um nome de prestígio e rentabilidade, com o licenciamento rigoroso para lançamentos de lenços, chapéus, óculos, acessórios e perfumes lançados e distribuídos na Europa e nos Estados Unidos.

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Crédito/Divulgação

* Culto e refinado,  Saint Laurent deixou heranças de estilo que são fonte de pesquisa e inspiração de designers do mundo inteiro. O “Le smoking”,  a coleção de vestidos de 65, inspirada na obra do artista holandês Piet Mondrian,  com linhas horizontais e verticais se cruzando em cores sobre um fundo branco e seu passeio pelo deserto com a linha saharienne. O primeiro modelo foi, na verdade, criado em 1968, peça única para um editorial de moda da Vogue. Uma das fotos com Veruska com o casaco safari, sobre a pele nua, tornou-se célebre e iniciou um novo style com a rubrica Saint Laurent.

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A histórica imagem do “Le Smoking”, que levou o terno para as festas / Reprodução

* A genialidade criativa de Yves Saint Laurent e o talento para os negócios do companheiro Bergé levaram a label a decisões pioneiras. YSL foi o primeiro nome da haute couture de Paris a abrir um prêt-à-porter de luxo –  YSL Rive Gauche, em 66.* Coleções inspiradas em outras terras, como África e Rússia, posteriores ao sucesso de “40 Graus”, feita de vestidos em shape anos 40 e decotes estratosféricos nas costas, uma sensualidade que chegou a ser escandalosa no longínquo ano de 71, porém deixou as mulheres loucas de desejo por um dos dress.

* Bergé convenceu Yves a fazer vários negócios, entre eles, a venda do setor de confecções da YSL para a companhia Mendés para comprar a Charles of the Ritz, que tinha os direitos de licenciamento dos perfumes da grife.

* Em 1999, quando vendeu a marca, possivelmente por US$ 1 bilhão, para François Pinault (Pinault-Printemps-Redoute), Yves logo depois sofreria o desencanto com o mundo da moda. Em 2002, despediu-se do ofício que o tornou célebre em todo o mundo.  “Escolhi dizer hoje adeus a esta profissão que eu tanto amei”, afirmou em uma coletiva. Para YSL, a  moda tornava-se, definitivamente, uma indústria regida apenas pelo lucro, ignorando a arte.